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07 novembro 2012

A solidão romantizada

Hoje trago pra vocês, um artigo jornalístico que escrevi para a disciplina de Impresso II da Universidade Federal do Ceará (Campus Cariri) e gostaria de compartilhar aqui:

              Define-se solidão como um estado ou sentimento no qual o ser humano se sente só, isolado em um mundo desconhecido e sombrio, habitado somente pelo vazio de sua própria existência. É claro que essa é uma explicação simples para uma palavra tão complexa e carregada de significados.
            A solidão é um sentimento derivado de tantos outros, que variam desde sensação de abandono, exclusão, inferioridade, etc... Fatos e acontecimentos que ocorrem ao nosso redor são fatores que também influenciam o ser a adentrar neste estado de solidão (traumas de infância, brigas, separações). No final, a pessoa acaba se isolando em seu próprio universo.
            Desde os tempos antigos, o homem sempre procurou viver em comunidade, ter um vínculo social, se identificar com certos preceitos que regem um dado grupo social ao qual está inserido... Mas às vezes, mesmo estando no seu grupo, ainda convivemos com o sentimento da solidão, o que nos deixa angustiado e se torna uma sombra receosa a nos perseguir na vida.
            A solidão humana é o objeto de estudo nos diversos campos da ciência e assunto de gigante abrangência e questionamento na literatura, na psicologia, na sociologia, etc. A escola existencialista (séculos XIX e XX), por exemplo, dentre as suas temáticas de seu estudo, volta o seu olhar para o assunto ‘solidão’ e a coloca no patamar de elemento constituinte da “essência humana”.
                Jean Paul Sartre já dizia "Se você sente solidão quando a sós, está em má companhia."
                Na literatura, a solidão é uma espécie de fuga de uma realidade cruel, uma inspiração poética, a bebida delirante tragada de uma só vez pelos poetas e escritores de diversos movimentos literários (como por exemplo, o romantismo, o simbolismo, e outros que trabalham com o sentimentalismo exagerado, individualismo, a consciência da solidão, tédio, frustração). 
            Henri Lacordaire, padre, jornalista e religioso francês fala “É a solidão que inspira os poetas, cria os artistas e anima o gênio”.
            Esse sentimento reflete também um medo reinante na mente do autor que tenta transcrever no papel perguntas, dúvidas e horrores causados por esse sentimento tão poderoso. 
        Victor Hugo, poeta romântico, enfatiza que “Todo o inferno está contido nesta única palavra: solidão”, manifestando então, o maior receio do homem (ou a melhor escapatória, em um dado momento de sua vida).
            Nos poemas de Álvares de Azevedo, a não realização do amor, a morte prematura de sua amada, fortalece o sentimento de solidão, aliado ao negativismo, loucura, pessimismo, desilusão. Um exemplo é o poema Solidão, cujo trecho de destaque exprime tudo que fora acima mencionado: “Minha alma tenebrosa se entristece, É muda como sala mortuária, Deito-me só e triste, e sem ter fome, e vejo na mesa a ceia solitária”.
            E para finalizar duas citações de Clarice Lispector, representante do pós-modernismo, que exalta e adora a solidão, colocando–a num patamar de força motriz que rege sua própria vida  ...Que minha solidão me sirva de companhia, que eu tenha a coragem de me enfrentar, que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo”; “Minha força está na solidão. Não tenho medo, nem de chuvas tempestivas, nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite”.
            Quando falamos de música, vários estilos musicais tem como mote a solidão. Porém me delimito no gênero e sub–gêneros do Heavy Metal (Symphonic Metal, Doom Metal, Gothic Metal...). As letras abordam as diversas condições humanas (traumas pessoais) e também discutem sobre a religião, sexualidade, morte, romance, histórias mitológicas, horror.
            Trechos de algumas músicas selecionadas exprimem uma solidão mais ‘ultra–romantizada’. É aquela em que a ausência do ser amado eleva o estado de isolamento de quem fica neste mundo a sofrer pela perda ou pela impossibilidade desse amor ser real. 
         A banda gótica Evanescence, na música Solitude demonstra uma adoração a esse sentimento: “Quantas vezes você me disse que a ama? (...) Oh, solidão, Ainda comigo é só você, Oh, solidão, Eu não consigo me afastar de você (...) Quem agora está sozinho, além de mim? (...) Oh, solidão, Só você, a única verdade.”




      Insania, banda de Melodic/ Power Metal, na música Forever Alone mostra o antagonismo entre o querer estar só, o querer ser inserido num grupo social e a predominância da solidão como a vencedora nesta disputa: “Olhe para os olhos dele, o que vc vê? Não há anda além de solidão e tristeza (...) Ele está chorando em solidão, pra sempre, Ele está buscando por amigos (...) Ele apenas quer viver sozinho, pra sempre.


After Forever, banda de Symphonic Metal, na música Alone remota ao medo de terminar os últimos dias de vida, tendo como única companhia a solidão, em virtude da não concretização do amor “(...) Espero, porém, que não termine sozinha (...) E meu amor por você permanece desconhecido.

Este mesmo pensamento, está presente na música Desolation da banda Midnatssol “(...) Gostaria de saber como se sente ao ser amado, Eu me pergunto como é ser tocada, ver todos os outros de mãos dadas e eu ainda estou sozinha comigo mesma.”

Encerrando a discussão do tema acima mencionado e relacionando–o a música, temos as canções I walk alone da cantora Tarja Turunen e Lonely Day da banda System of a down que mostra a conscientização que o indivíduo adquire sobre a solidão: “(...) Eu caminho sozinha, Cada passo que dou, Eu caminho sozinha.” “Um dia tão solitário! E é meu, O dia mais solitário da minha vida, Um dia tão solitário! Devia ser banido, É o dia o qual não posso agüentar (...).”






No decorrer destes parágrafos, tivemos uma noção da definição romantizada da solidão, especialmente na literatura e na música. Mas ainda resta a pergunta que não quer calar: por que o ser humano vive rodeado de gente e mesmo assim se sente só?
            Esta é uma pergunta que requer inúmeras discussões até que encontremos uma resposta concreta. O que não podemos deixar é que esse sentimento interfira na nossa vida a ponto de nos causar mal. É claro que há momentos na vida, em que minutos de isolamento, meditação e silêncio são necessários para repensarmos certas reflexões referentes a nossa vida, mas isso não implica que a solidão seja a única maneia de ‘escapismo’, da não aceitação ou negação da realidade ao nosso redor, do medo de enfrentar os nossos demônios interiores e exteriores. 

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